A atriz Lilia Cabral prestou uma homenagem emocionada ao escritor Manoel Carlos, que morreu no último sábado (10), aos 92 anos, no Rio de Janeiro. A despedida pública aconteceu no programa “Fantástico”, da TV Globo, exibido neste domingo (11), e destacou a importância do autor para a dramaturgia brasileira e para a trajetória pessoal e profissional da atriz.
Embora nunca tenha interpretado uma das icônicas “Helenas” criadas por Manoel Carlos, Lilia construiu uma parceria sólida com o novelista ao longo dos anos, com atuações marcantes em produções como “História de Amor” e “Viver a Vida”. No palco do programa, a atriz falou com emoção sobre a sensibilidade e o olhar singular do autor, capaz de revelar novas camadas em seus personagens.
Segundo Lilia, Manoel Carlos foi responsável por ampliar a forma como ela era vista artisticamente. Antes da parceria, a atriz sentia que era associada a papéis mais leves e descontraídos. “Ele tinha um olhar de raio-X”, afirmou, ao destacar que o autor enxergou nela profundidade e densidade emocional, sem perder a leveza. Para a atriz, essa percepção foi transformadora não apenas para sua carreira, mas também para sua vida.
Durante o tributo, Lilia relembrou a experiência de ler os textos do novelista e o impacto da escrita minuciosa e humana de Manoel Carlos. Ela ressaltou a maneira como o autor construía seus personagens de forma sutil, observando o cotidiano e traduzindo sentimentos universais em diálogos simples, porém profundos. “Ele ia desenhando cada personagem nas entrelinhas, com a sabedoria de quem observa a vida da janela”, afirmou.
Com a voz embargada, a atriz também citou um depoimento de Manoel Carlos ao projeto “Memória Globo”, no qual o autor explicava sua visão sobre a ficção. No trecho lembrado, Maneco afirmava que mais importante do que a fidelidade à realidade era a verossimilhança, defendendo que a ficção precisa fazer sentido para criar identificação com o público. Para ele, o uso de elementos do cotidiano e das relações familiares aproximava o telespectador das histórias, tornando-as críveis e emocionalmente verdadeiras.
Ao final da homenagem, Lilia Cabral exaltou o legado deixado por Manoel Carlos e destacou o impacto duradouro de sua obra na televisão brasileira. Segundo a atriz, o autor foi responsável por levar tanta verdade às telas que, muitas vezes, o público já não distinguia onde terminava a ficção e começava a realidade. “Nossa gratidão será eterna”, declarou.

Quem foi Manoel Carlos
Manoel Carlos, conhecido como Maneco, foi um dos principais autores da teledramaturgia brasileira. Nascido em 1933, em São Paulo, considerava-se carioca de coração e construiu uma carreira marcada pela sensibilidade, pelo retrato do cotidiano e pela profundidade dos conflitos familiares. Filho de um comerciante e de uma professora, começou a trabalhar ainda adolescente, aos 14 anos, ao mesmo tempo em que se aproximava do universo artístico.
Na juventude, integrou um grupo de estudos de literatura e teatro na Biblioteca Municipal de São Paulo, ao lado de nomes que se tornariam referências da cultura brasileira, como Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Sua trajetória artística teve início como ator, passando pelo teleteatro da TV Tupi, antes de se firmar como roteirista, diretor e autor.
Ao longo das décadas de 1950 e 1960, Manoel Carlos atuou em diversas emissoras, escrevendo e adaptando dezenas de teleteatros e programas de TV. Chegou à TV Globo em 1972, como diretor-geral do “Fantástico”, e estreou como novelista da emissora em 1978. A partir dos anos 1980, consolidou um estilo próprio, inspirado na verossimilhança, no diálogo com o cotidiano e na observação das relações humanas.
Maneco ficou especialmente conhecido pelas personagens chamadas Helenas, protagonistas de várias de suas novelas, sempre retratadas como mulheres fortes, mães intensas e emocionalmente complexas. O Rio de Janeiro, especialmente o bairro do Leblon, tornou-se cenário recorrente de suas histórias, que abordavam temas como amor, ciúme, sacrifício, família e questões sociais.
Autor de obras marcantes como Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Viver a Vida, Manoel Carlos deixou um legado que atravessou gerações. Sua última novela foi “Em Família” (2014).







